quarta-feira, 26 de março de 2008

Champix Chantix Chega de Vício pratique esportes !


Por trinta anos, o empresário paulista Nelson Augusto Martos, de 45 anos, fumou de dois a três maços de cigarro por dia. Na última década, por diversas vezes, ele tentou abandonar o vício. Sem sucesso. Martos experimentou de tudo – de antidepressivos e adesivos de nicotina a vitamina C diluída em água e simpatias. O máximo a que o empresário chegou foi manter-se longe do cigarro por trinta dias. Agora, depois de tantos fracassos, pela primeira vez, ele está confiante. Em sua mais recente investida contra o tabagismo, ele não dá uma única tragada há três meses. Martos é um dos primeiros brasileiros a se tratar com comprimidos de vareniclina, vendidos nos Estados Unidos pela Pfizer como Chantix e na Europa como Champix, o mesmo nome adotado no Brasil.

A vareniclina acaba de chegar ao Brasil. Essa nova arma contra o vício químico atua nos mecanismos cerebrais da dependência, bloqueando a sensação de prazer proporcionada, por exemplo, pela nicotina. A idéia é tornar a absorção de nicotina tão sem sentido quanto a fumaça de um cigarro de chuchu. Em uma possível recaída, as baforadas vão ter efeito nulo sobre os centros de prazer do paciente e a tendência é que ele consiga se manter longe do cigarro.

Divulgação

Imagem da campanha antifumo patrocinada pelo governo inglês: "Não se deixe fisgar" é o slogan

A vareniclina é apenas parte do arsenal contra o vício químico que já está à disposição dos médicos. Muitos outros remédios encontram-se em testes. Só nos Estados Unidos, estão em estudo duas centenas de novas medicações contra os mais diversos vícios químicos. Da nicotina ao álcool e drogas pesadas e até exageros comportamentais compulsivos que, em sua essência, podem ser explicados pela dependência neuronal a certas substâncias prazerosas lançadas na corrente sanguínea pelo jogo compulsivo, pelas compras, pelo sexo e pela comida.

Espera-se que, nos próximos dois anos, passem a ser comercializadas duas vacinas – uma contra a dependência de nicotina e outra para deter o uso da cocaína. Também está em fase avançada de testes clínicos um remédio para o tratamento do vício em álcool e metanfetaminas, classe de drogas cujo representante mais conhecido é o ecstasy. O medicamento age sobre o neurotransmissor GABA, otimizando a sua ação no organismo. Essa substância, produzida no cérebro, pode funcionar como um interruptor nos processos de compulsão.

Em cinco ou dez anos, afirmam os especialistas, a medicina viverá uma revolução no tratamento de todo e qualquer tipo de vício. A chave desse avanço está na compreensão dos caminhos percorridos pela dopamina no cérebro. A dopamina é o neurotransmissor da dependência. Ela é que dispara a sensação de prazer – seja a advinda da ingestão de um prato saboroso, seja a causada pelo uso de um entorpecente. Ao inalar cocaína, por exemplo, o usuário tem seu cérebro inundado de dopamina – daí a sensação de euforia que, em geral, a droga produz. Até pouquíssimo tempo atrás, acreditava-se que o vício era processado exclusivamente nas porções cerebrais associadas ao sistema de prazer e recompensa, ativado em especial pela dopamina. A grande novidade é a descoberta de que há outros circuitos envolvidos nesse mecanismo, e de que a dopamina também os integra. "Graças ao aperfeiçoamento dos exames de neuroimagem, constatamos que os efeitos neurobiológicos das drogas ultrapassam os centros de prazer e recompensa do cérebro e se estendem ao córtex pré-frontal, região associada à analise dos riscos e benefícios, na qual se concentram as tomadas de decisão", diz a psiquiatra Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional de Abuso de Drogas, dos Estados Unidos, e uma das principais autoridades mundiais no assunto. E o que isso muda na compreensão do vício? Simples: é preciso também alterar a química envolvida nos processos decisórios e mnemônicos. Sem isso, apenas parte do mecanismo do vício é combatida. Em outras palavras, é necessário "apagar" o impulso e a memória que levam ao consumo da droga.

O poder das lembranças associadas às drogas é poderosíssimo. Essa memória vem à tona sempre que um usuário vê um objeto ou uma pessoa relacionados às suas experiências com o vício. Um estudo publicado no ano passado na revista científica The Journal of Neuroscience fornece a dimensão exata do que acontece no cérebro dos dependentes nesses momentos. Pesquisadores americanos dividiram dezoito cocainômanos em dois grupos. O primeiro assistiu a filmes com cenas de natureza. O segundo, a imagens de outras pessoas usando cocaína. Por intermédio de tomografias computadorizadas, os especialistas notaram que os participantes do segundo grupo registraram um aumento na síntese de dopamina. A conseqüência: uma enorme "fissura" por consumir a droga por parte desses participantes. Com base em descobertas nesse sentido, as pesquisas passaram a dar menos ênfase ao sistema de recompensa e mais aos processos de formação e consolidação da memória do uso de substâncias psicoativas. Há um remédio contra a cocaína em fase adiantada de estudos que atua nesse processo – cujos resultados até agora são bastante promissores. Ao agir sobre os níveis de dopamina, ele corta a relação entre lembrança e vontade de usar a droga.

Um enorme salto na busca pelo tratamento da dependência foi dado a partir do momento em que o vício deixou de ser visto como uma doença da alma – uma fraqueza de caráter que impinge a suas vítimas comportamentos autodestrutivos – e começou a ser encarado como um distúrbio cerebral. Ele decorre de um desequilíbrio químico e altera os circuitos de recompensa e prazer, tomada de decisões, controle inibitório e aprendizado. Trata-se, como se vê, de um problema bastante intricado. Explica-se, assim, por que a luta contra o vício costuma ser marcada por recaídas e fracassos. Alguém que decida parar de fumar, por exemplo, faz, em média, oito tentativas até largar de vez o cigarro. Na lista das substâncias que mais viciam, a nicotina está à frente da maconha e do ecstasy. Essa característica foi traduzida em imagens por uma campanha antitabaco deflagrada pelo governo inglês, que apresenta jovens fumantes sendo fisgados pela boca por anzóis. "Não se deixe fisgar", diz o slogan. Com quase 30 milhões de dependentes no Brasil, o cigarro mata 200 000 pessoas por ano. É uma morte a cada oito segundos no mundo. A vareniclina está longe de ser a solução mágica contra o problema, mas representa um avanço espetacular. Se associada à terapia cognitivo-comportamental, sua taxa de sucesso chega a dobrar.

A combinação com terapias psicológicas é essencial para ajudar o dependente a reprogramar o cérebro para a nova vida, longe do vício. Veja-se o caso do grupo Alcoólicos Anônimos (AA). Há mais de setenta anos, muito tempo antes de a ciência começar a desvendar os mecanismos do vício, o AA já ajudava muita gente a se livrar da bebida. Ainda assim, o índice de sucesso de terapias como a do AA segue a média internacional de recuperação de alcoólatras – que, independentemente do método utilizado, tende a ficar em torno de 20% ao fim de um ano. Com a ajuda de um remédio contra o alcoolismo como o acamprosato, no entanto, esse índice pode chegar a 45%. "Tratar a dependência sem a ajuda de remédio é como cuidar de um canal dentário sem anestesia", diz a cardiologista Jaqueline Scholz Issa, diretora do ambulatório de tabagismo do Instituto do Coração, de São Paulo.

O vício é fruto, em grande parte, de propensão genética. "Assim como há pessoas mais predispostas a desenvolver depressão, hipertensão e câncer, existem aquelas mais suscetíveis à dependência química", diz o psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), da Universidade de São Paulo. Não fosse assim, todos que algum dia experimentaram algum tipo de droga – do álcool à heroína – se tornariam dependentes. É a genética, ainda, que estabelece o tipo de dependência e a sua intensidade. Estima-se que os fatores genéticos respondam por algo entre 40% e 60% da vulnerabilidade ao vício. Existe um gene específico associado à síntese da enzima monoaminoxidase A, uma das substâncias responsáveis pelo equilíbrio de dopamina no cérebro. Quando há mutações nesse gene, a pessoa torna-se mais ou menos vulnerável ao vício. A genética explica também por que existem pessoas com baixos níveis de receptores de dopamina – o que as faz mais suscetíveis ao vício e a achar mais prazerosa a experiência com drogas.

Há dois grupos de pessoas bastante vulneráveis ao vício – os adolescentes e os portadores de distúrbios psiquiátricos, como esquizofrenia, depressão e ansiedade. Durante a adolescência, o cérebro sofre mudanças dramáticas. Uma das áreas ainda em maturação é o córtex pré-frontal, associado à tomada de decisões e responsável pelo controle dos desejos e emoções. O fato de essa região do cérebro ainda estar em desenvolvimento nos adolescentes os coloca sob risco maior de optar por decisões erradas, como experimentar drogas e continuar a abusar delas. Além disso, o uso de substâncias químicas nesse momento de desenvolvimento tende a ter um impacto mais profundo e duradouro no funcionamento cerebral. "Não queremos deixar os pais em pânico, mas é importante que eles saibam que a adolescência é uma fase de extrema vulnerabilidade", alerta Nora Volkow. A maior parte dos dependentes químicos se iniciou no vício – qualquer um deles – na juventude. Entre os usuários de drogas, isso ocorre, em geral, antes dos 21 anos. Quanto aos alcoólatras, antes dos 15. "É fundamental que os pais fiquem atentos a essa realidade e ao comportamento dos filhos adolescentes", enfatiza o psiquiatra André Malbergier, do Grea.

O uso repetido de drogas muda a forma como o usuário se relaciona com o mundo. Além de alterar as emoções, compromete a capacidade de cognição e os reflexos motores. A boa notícia é que o cérebro tem uma capacidade extraordinária de se recuperar dos danos causados pelo vício. Quanto antes uma pessoa inicia o tratamento, melhor. É mais difícil tratar alguém que foi dependente de cocaína por trinta anos do que quem usa a droga há três. O mesmo vale para outras drogas, como nicotina e álcool. Os especialistas são unânimes em dizer que não existem tratamentos eficazes que durem menos de noventa dias. Os exames de neuroimagem mostram que esse é o período de maior propensão a recaídas, porque o cérebro permanece mais vulnerável ao longo dos três meses seguintes à última vez em que se utilizou a droga.

Uma equipe de antropólogos da Universidade da Califórnia defende a tese de que o uso de substâncias psicoativas teria ajudado a humanidade a suportar a vida nos ambientes mais hostis. Há quem acredite que o tédio e a solidão, dois dos males da modernidade, tendem a reforçar a manifestação dessa tendência ancestral. Tal convicção baseia-se em experimentos como o levado a cabo, no fim dos anos 70, pelo pesquisador americano Bruce Alexander. Ele pegou um grupo de ratos de laboratório e os colocou numa jaula com muito espaço livre, cheio de bolas coloridas e brinquedinhos – uma espécie de Disneylândia dos ratos. A esses animais eram oferecidos água e um coquetel adocicado, à base de morfina. O mesmo foi dado a outros ratos, isolados uns dos outros, em jaulas escuras e diminutas. Resultado: os ratinhos do parque de diversões mal tocaram na solução de morfina, preferiram a água. Os animais isolados, por sua vez, se entupiram de morfina. Consumiram o coquetel numa quantidade dez vezes superior à dos ratinhos contentes. Se parece impossível erradicar a tendência ao vício e as suas causas, genéticas e ambientais, que pelo menos se consiga desligar os circuitos que levam à autodestruição.




Fonte: clau-detudoumpouco.blogspot.com

Obs: O Blogger parou de fumar há quase 6 anos, cheguei a fumar 3 maços por dia, fumei 18 anos da minha vida e parei em homenagem a minha avó paterna.

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